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 NORDESTINA

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Inácio da Catingueira

Sendo negro e analfabeto não trepidou enfrentar os maiores cantadores do seu tempo

 
 

Eu nunca vi filho único 
Que não fosse preguiçoso! 
Quem anda com guarda-costa 
Não é valente, é medroso! 
O homem se faz por si, 
Ninguém nasce poderoso! 
O pobre fica maluco, 
O rico fica nervoso... 

 

 
INÁCIO DA CATINGUEIRA, negro escravo do fazendeiro Manuel Luiz, cantador lendário e citado orgulhosamente por todos os improvisadores do sertão. Seus dotes de espírito, a rapidez fulminante das respostas, a graças dos remoques, a fertilidade dos recursos poéticos, a espantosa resistêcia vocal, ficaram celebrados perpetuamente. Sendo negro e analfabeto não trepidou enfrentar os maiores cantadores do seu tempo, debatendo-se heroicamente e vencendo quase todos. Foi o único homem que conseguiu derrubar Romano da Mãe D’Água, depois de cantarem juntos oito dias em Patos, luta que é a página mais falada nos anais da cantoria sertaneja. O Grande Negro nasceu no dia de santo Inácio Loiola, 31 de julho, na fazenda e povoação de Catingueira, perto de Teixeira, Ribeira do Piancó, Paraiba, e faleceu aí, sexagenário, em fins de 1879.
 
I

Me tirem de um engano: 
Me apontem com o dedo 
Quem é Francisco Romano, 
Pois eu ando no seu piso 
Já não sei há quantos anos. 

Negro, me diga o seu nome 
Que eu quero ser sabedor, 
Se é solteiro ou casado, 
Aonde é morador, 
Se acaso for cativo, 
Diga quem é seu senhor. 

Eu sou muito conhecido, 
Aqui nesta ribeira, 
Este é o seu criado 
da Catingueira. 
Dentro da Vila de Patos, 
Compro, vendo e faço feira. 

Negro, vieste a Patos 
Procurando quem te forre 
Volta pra trás, meu negrinho 
Que aqui ninguém te socorre; 
E quem cai nas minhas unhas 
Apanha, deserta ou morre. 

Seu Romano, em vim a Patos 
Pela fama do senhor, 
Que me disseram que era 
Mestre e rei de cantador; 
E que dentro de um salão 
Tem discurso de doutor. 

Inaço, que andas fazendo 
Aqui nesta freguesia, 
Cadê o teu passaporte, 
A tua carta de guia 
Aonde tá teu sinhô 
Cadê a tua famia. 

Seu Romano, eu sou cativo, 
Trabalho para meu sinhô... 
Quando vou para uma festa 
Foi ele quem me mandou, 
E quando saio escondido 
Ele sabe pronde eu vou.

Inaço, deixa-te disto, 
Não te possa acreditá 
Pois eu também tenho nego 
E só mando trabaiá... 
Como é que teu sinhô 
Vai te mandá vadiá? 

Inaço da Catinguera, 
Escravo de Mané Luiz 
Tanto corta com risca, 
Como sustenta o que diz! 
Sou vigaro capelão 
E sacristão da matriz. 

 

Leia mais sobre Inácio da Catingueira: http://www.jangadabrasil.com.br/setembro/cn10900f.htm
 

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